Riachão-Ma

Bom para se visitar, melhor para se morar!

Advertisement

A briga nas urnas que assusta o Vale do Silício

A briga nas urnas que assusta o Vale do Silício

Na Califórnia, nenhuma pergunta da cédula desta terça-feira, 3, recebeu tanta atenção quanto a Proposição 40. Ela cria um imposto único de 5% sobre o patrimônio dos cerca de 200 californianos com mais de 1 bilhão de dólares. Sergey Brin, cofundador do Google, tornou-se o maior doador individual da história dos plebiscitos do estado para derrubá-la, e até o governador Gavin Newsom ficou contra. As pesquisas indicam uma disputa apertada.

O imposto é símbolo de uma disputa ideológica sobre o que faz os Estados Unidos serem o que são, terra da oportunidade, líder do mundo livre, e é mesmo importante. Na prática, porém, ele atinge só algumas centenas de pessoas muito ricas. O que tira o sono das empresas de tecnologia de verdade é uma revolta popular que chama menos atenção por estar espalhada por muitas cidades pequenas, sem um rosto ou um vilão claro. É o levante contra os data centers. Esses galpões cheios de servidores consomem quantidades enormes de energia e de água e são a base física da corrida pela inteligência artificial.

Nesta terça, eleitores de dez estados decidem 41 medidas locais sobre data centers. Em 28 delas, votar “sim” significa limitar a sua construção, com proibições completas ou moratórias temporárias.

Ohio, o epicentro

Continua após a publicidade

Ohio concentra 21 dessas votações, em 18 comunidades. O estado tem o quarto maior número de data centers em operação do país, e há planos para a construção de dezenas a mais. Em Hubbard, os eleitores podem decidir uma proibição total de novas instalações em seus limites. Em Grove City, a proposta exige aprovação popular para cada empreendimento que consuma mais de 20 megawatts ou meio milhão de galões de água por dia. Pelo menos 138 municípios do estado já aprovaram moratórias.

O tema que pode decidir o Senado

Continua após a publicidade

A questão não se restringe às consultas populares e pode influenciar diretamente a disputa pela maioria no Senado. Em Ohio, o democrata Sherrod Brown, ex-senador que tenta voltar ao cargo, centrou sua campanha nesse tema contra o atual senador, o republicano Jon Husted. Brown afirma que foi Husted quem atraiu os impopulares data centers ao estado, com incentivos fiscais, quando era vice-governador. Um memorando republicano vazado em agosto dizia que os data centers são “a âncora pendurada no pescoço de Husted”.

Uma pesquisa Gallup de maio mostrou que 71% dos americanos rejeitam um data center na sua comunidade. Os motivos são concretos. O primeiro é a conta de luz: para atender esses gigantes, as distribuidoras precisam construir usinas, subestações e linhas de transmissão, e parte do custo acaba no bolso dos moradores. Depois vem a água, usada em grande volume para resfriar os servidores. Há ainda o zumbido contínuo dos sistemas de refrigeração e a poluição dos geradores a diesel. E a conta também não fecha no emprego: as obras mobilizam muita gente, mas, prontos, os data centers empregam poucos funcionários fixos, quase sempre depois de receber generosos incentivos fiscais.

Continua após a publicidade

A reação atravessa os partidos. A governadora democrata de Nova York, Kathy Hochul, aprovou uma proibição de um ano para novos data centers de grande porte. No Texas, o republicano Greg Abbott passou a exigir que as empresas paguem a própria infraestrutura e suspendeu novas conexões desses projetos à rede elétrica até que uma auditoria avalie o consumo de energia e de água de cada um.

Trilhões em jogo

Continua após a publicidade

As grandes empresas e as incorporadoras do setor planejam investir cerca de 3 trilhões de dólares em mais de 3 mil data centers nos Estados Unidos até 2030, segundo a consultoria Industrial Info Resources. Mas, só neste ano, mais de 50 projetos já foram cancelados por oposição das comunidades.

Na Califórnia, o tema aparece de forma indireta. A Proposição 45, apresentada como uma medida para acelerar a construção de moradias, simplifica o licenciamento ambiental de várias obras. Os críticos dizem que ela pode esvaziar as leis estaduais recém-aprovadas para controlar os data centers. O setor nega, mas a campanha pelo “sim” arrecadou mais de 40 milhões de dólares, inclusive da distribuidora de energia PG&E e da Prologis, que constrói data centers.

Continua após a publicidade

Os resultados devem sair ao longo da noite. Para a indústria, o recado pode valer mais que qualquer cadeira no Congresso. Se Husted perder e a culpa cair nos data centers, como alertou o memorando republicano, políticos do país inteiro vão pensar duas vezes antes de apoiar o próximo projeto.

Publicidade

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *