Morador por anos da capital fluminense, o autor português Hugo Gonçalves, 50, avalia que a metrópole reflete de maneira nítida a permanência de estruturas do passado na estrutura social brasileira.
O cotidiano e as marcas do passado
Divulgando seu livro O Império do Fim, lançado recentemente em terras portuguesas, o romancista destacou em entrevista que a divisão de classes ainda molda a rotina urbana da cidade.
“O Rio de Janeiro deve ser uma das cidades mais coloniais do Brasil. Vemos nos ascensoristas, nos porteiros, nos garotos que colocam as compras em sacolas nos supermercados uma espécie do que era a sociedade colonial e escravagista”, afirmou. O escritor completou sua análise citando estruturas arquitetônicas: “O elevador de serviço, o quarto da empregada, tudo isso. O Rio, com todas as coisas fantásticas que tem, e eu adoro o Rio, também tem uma herança colonial muito presente.”
Diferenças entre Brasil e Portugal
Apesar desses vestígios de desigualdade, Gonçalves pontua que o território brasileiro demonstra maior avanço nas discussões sobre racismo e o legado da exploração histórica quando comparado à nação europeia, impulsionado pela pluralidade demográfica.
“A sociedade brasileira é muito mais mesclada, muito mais negra, e está um passo à frente, ou dois ou três, no sentido de falar disso. De falar na academia, na universidade, nos programas de televisão. Em Portugal, ainda temos alguma dificuldade de falar desses temas”, declarou. Além disso, o romancista critica o mito da colonização pacífica: “As pessoas preferem ter uma visão mais benevolente acerca de si mesmas e dos seus antepassados”, disse.
Guerra colonial e o novo romance
A trama do livro aborda a trajetória de dois amigos de infância em Angola, divididos pelo conflito separatista. Enquanto Cosme, descendente de portugueses, luta pelo exército de Portugal, Mouzinho engaja-se na resistência pela independência angolana.
A narrativa dialoga com memórias familiares do próprio autor, cujo pai integrou as forças em Luanda. Conforme o romancista relata, as lembranças paternas eram compostas por saudosismo, laços de amizade e as complexidades de um confronto gerador de traumas duraderos.
O debate sobre reparações históricas
Sobre a discussão de reparações financeiras ou materiais pelo período colonial, o criador argumenta que o governo português necessita primeiro superar uma barreira educacional e admitir os episódios de violência.
“Antes de pensar em qualquer reparação, é preciso ter essa conversa, assumir e informar as crianças para que tenham outra visão do que foi o Império Colonial. Acho que ainda estamos longe disso”, concluiu.
















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