O câncer de pulmão não pode mais ser encarado como uma patologia exclusiva de fumantes. Embora o cigarro continue sendo o principal gatilho para o problema, o número de diagnósticos em pessoas que nunca consumiram derivados de tabaco vem crescendo de forma expressiva, com forte incidência entre o público feminino.
Desigualdade na pesquisa clínica
A baixa inclusão de mulheres em ensaios clínicos compromete o avanço do conhecimento médico e a eficácia dos tratamentos. A constatação foi apontada pela oncologista Pilar Garrido durante a abertura do congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO), realizado em Madri.
Professora da Universidade de Alcalá e chefe do Departamento de Oncologia Médica do Hospital Universitário Ramón y Cajal, a médica espanhola foi honrada com o prêmio “ESMO Women for Oncology”. A comenda reconhece sua trajetória no combate aos tumores torácicos e sua luta pela igualdade de gênero na medicina.
Durante o evento, a pesquisadora enfatizou que a vulnerabilidade ao fumo pode variar entre os sexos. Fatores como metabolismo de toxinas e capacidade de reparação do DNA indicam que as mulheres podem sofrer mais com os danos causados pelo cigarro, hipóteses que ainda exigem aprofundamento científico.
“O tabaco continua sendo o principal fator de risco evitável para o câncer de pulmão”, afirmou Garrido em sua apresentação. “E as mulheres podem ser mais suscetíveis ao tabaco”, acrescentou a pesquisadora.
A subrepresentação feminina em estudos de rastreamento é alarmante. No projeto norte-americano NLST, apenas 39% dos voluntários eram do sexo feminino, enquanto no europeu NELSON esse índice despencou para cerca de 16%.
O desafio da doença em não-fumantes
Os protocolos atuais de triagem, baseados estritamente na idade e no histórico de consumo de tabaco, acabam ignorando mulheres que desenvolvem a enfermidade sem nunca terem fumado. Globalmente e no Brasil, as diretrizes tradicionais falham em contemplar essa parcela vulnerável da população.
A ausência do cigarro não afasta o perigo. Cerca de dois terços dos casos em não-fumantes acometem mulheres, com índices alarmantes em descendentes de asiáticos e hispânicos nos Estados Unidos. No Brasil, levantamentos recentes publicados no periódico JCO Global Oncology confirmam a alta contínua de diagnósticos na mesma demografia.
Fatores de risco e predisposição genética
Poluição atmosférica, fumo passivo por longos períodos — como conviver com fumantes por mais de 30 anos —, e até a exposição à fumaça doméstica gerada por combustíveis sólidos ou altas temperaturas em frituras entram na lista de ameaças.
Mutação em genes específicos como EGFR, HER2, BRCA2, CHEK2, MET e YAP1 também compõem o cenário de risco hereditário estudado pela ciência oncológica.
Para alcançar avanços reais na prevenção e na terapia, a equidade precisa prevalecer tanto no espaço de liderança científica quanto na diversidade dos grupos analisados. “Precisamos de mais mulheres nas pesquisas sobre cancer de pulmao”, concluiu a especialista.
















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